Sensações

Bom, todos sabem como eu vim parar aqui... Sou uma das “observadoras” da cidade de Mococa, comecei no VI ENA e éramos somente duas meninas de uma cidadezinha do interior de São Paulo em um grupo que parecia ser de milhares de adolescentes.
Confesso que eu estava acostumada a participar de encontros (era membro ativa da Igreja católica na minha cidade), mas nunca tinha visto nada tão grandioso e onde eu tivesse vez e voz.
Fiquei impressionada com a abertura, com o acolhimento que tivemos, com a organização e com a possibilidade de me fazer ouvir. Lembro-me do meu primeiro GT, fotografia, com a Claudinha de Lavras, onde desenvolvemos um texto a várias mãos e a sensação de realmente fazer parte do grupo como um ser pensante e não apenas alguém que está para “engolir e digerir” o que era dito.

Naquele ano já deixei amigos lá, chorei na despedida, prometi retornar no ano seguinte e voltei para casa com gostinho de quero mais.
Alguns meses depois ouvi falar do I EMA e, claro que, eu fui. Para minha alegria me deparo com alguns adolescentes que havia conhecido no ENA – o pessoal de Uberlândia – e consegui reviver toda a alegria e excitamento daqueles dias mágicos que eu havia vivido em Campinas, naquele mesmo ano.
A memória me falha, afinal já são quase 20 anos desde o meu primeiro Encontro, mas ainda naquele ano ou no começo de 1997 fundamos o Grupo TUMM – que ainda não tinha nome. Assim como no meu primeiro ENA eu cheguei lá sem saber o que esperar ou se haveria alguém conhecido, mas fui. Afinal eu sabia que aquele grupo era meu passaporte para um próximo ENA. Com o tempo passei a conhecer todos os integrantes e eu sentia como se eles fossem parte de uma família meio louca da qual eu fazia parte. Tínhamos duas “mãezonas” e vários irmãos, eu era uma das mais velhas do grupo e a mais “experiente” – afinal era a única que tinha participado de um ENA. Eu me lembro de uma vez ter que contar ao resto do grupo como era o ENA e sobre a dificuldade de expressar em palavras tantos sentimentos e emoções.

Mas finalmente chegou a hora do VII ENA, em Uberlândia! Fizemos camisetas do grupo TUMM, montamos um rap para a apresentação do grupo na abertura. Mas acima de tudo eu me lembro da ansiedade que eu senti antes de embarcarmos naquela louca viagem, era pura adrenalina.

Naquele encontro eu e o Roberto fomos responsáveis pela oficina do Grupo TUMM: “eu confio em mim” – o que mais marcou foi a insegurança, o pensamento que as pessoas pudessem não gostar do assunto da nossa oficina e não se inscreverem. Mas eles se inscreveram e depois que começamos a trabalhar a oficina, a tensão passou e foi incrível.

Depois daquele ENA eu convidei meu irmão para participar do TUMM e ele se tornou uma das figuras mais populares dos ENAs – afinal quem não conhece/ouviu falar do Neto de Mococa? – E em 1998 participamos do nosso primeiro ENA juntos – o VIII ENA, em Rio Claro. Fiquei orgulhosa em trazer meu irmão para um movimento no qual eu acredito (eu amo voluntariar) e vê-lo participar ativamente.

Também foi incrível, ao longo desses anos, poder conhecer tanta gente diferente, de lugares diferentes e ter acesso a informação, poder replicar essa informação para outros adolescentes e até mesmo adultos.

Em 1998 eu concluí o Ensino Médio e foi tempo de “me tornar um adulto”, fui atrás de emprego, trabalhei um pouquinho em Campinas e tive uma breve participação na TABA, fui pra São Paulo – trabalhei por lá também e voltei pra Mococa. Participei de mais alguns EMAs e acompanhei meu irmão indo aos ENAs de Porto Alegre e Salvador.

Apesar de ter saído do movimento, o movimento nunca saiu de mim. Já na minha vida adulta participei de trabalhos voluntários e, sempre que ouço que alguém precisa de ajuda, estou lá pra ajudar. Embora meu sonho, na adolescência, fosse ser jornalista eu me formei em Logística e trabalhei por 8 anos na área, depois disso cansei da minha vida como estava e decidi dar forma a um antigo sonho: saber o que há depois do horizonte. Parti para o mundo e morei na Africa do Sul

e nos Estados Unidos – dois países completamente diferentes entre si e do Brasil e foram experiencias enriquecedoras. Em 2012, quando eu estava no Estados Unidos todos começaram a falar de um possível reencontro e eu ficava pensando: será que conseguirei ir? Todas as memórias, os amigos que eu fiz e que não tinha contato há anos, os poucos que eu ainda tinha contato. Eu queria muito poder revê-los. Eu queria muito saber como seria esse reencontro e quais seriam as emoções. Mas realmente não sabia onde estaria ou se teria condições de ir até esse Encontro.

Voltei para o Brasil em fevereiro de 2014 deixando amigos e namorado la nos States, mas e o Reencontro ainda não havia rolado - havia esperança! Mas minhas “asas” sempre inquietas não param de bater e de me lembrar como é bom "voar". Felizmente consegui participar do reencontro e foi incrível. Rever pessoas, reviver sentimentos, expressar minhas emoções - eu voltei a ser adolescente por um final de semana.

Atualmente tenho um emprego, mas busco um trabalho voluntário para as horas vagas (a gente sai do voluntariado, mas o voluntariado não sai da gente) e já estou pensando no meu próximo destino. Acredito que o fato de ter tido vez e voz durante a minha adolescência, de encontrar outros “esquisitos” como eu e poder acreditar que eu seria capaz de mudar o mundo foi a coisa que mais marcou e ainda me marca. E eu ainda penso que posso mudar o mundo, porque no dia que eu deixar de sonhar e de acreditar nisso eu deixarei de ser eu.

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